14 de out de 2008

O Engraxate.

Ia andando pela rua. Uma caixa de engraxate debaixo do braço. Seguia triste, melancólico, rumo a alguma rua do centro da cidade. Iria trabalhar até anoitecer. Os poucos trocados que recebesse iriam para seu padrasto. Levava dentro da caixa suas ferramentas, dentro da cabeça suas idéias.

Atravessou um terreno baldio. Todo sujo e cheio de mato. No meio dele uma velha lata de pêssegos. Um pontapé bem dado. Agora, o terreno era um estádio imenso, lotado. A torcida vibrava e gritava seu nome. Ele corria driblava um, outro, o goleiro. Chutava e marcava um gol espetacular. Corria, dava cambalhotas enquanto comemorava. Tropeçou. Caiu no chão. Despencou de volta ao terreno baldio. A lata de pêssegos caída amassada, a caixa de engraxate aos eu lado no chão. Levantou, limpou a terra do rosto e continuo seu caminho.

Chegou ao centro. A praça. Os pombos. As pessoas passando. Se aproximou de um homem que lia um jornal, sentado num banco. Pediu para lhe engraxar os sapatos. O homem olhou para ele. Pensou um pouco e aceitou. Ele começou o serviço. Enquanto trabalhava de vez em quando olhava para cima e lia uma noticia no jornal do homem. “Gelo em Marte”; “Homem morre atacado por cachorro”; “Preso suspeito de forjar suicídio da namorada.”; “ Preço do petróleo dispara”. Acabou o serviço. O homem lhe da uma moeda de um real.

Ele senta um pouco. Relembra das notícias que leu no jornal. Viaja. Está em uma nave espacial, Vê um planeta a frente, branco, coberto degelo. Mexe em alguns botões. A nave pousa. Com um traje espacial ele sai. Caminha. Faz uma bola de neve e chuta. Ela vai longe. De repente surgem soldados-cachorros, com armas de raios. Ele corre, se esconde. Saca sua pistola. Acerta um, outro, mais outro. Esta quase vencendo...

Alguém fala com ele. Um velho. Quer engraxar os sapatos. Rapidamente ele volta a realidade. Abre sua caixa e pega a graxa e a escova. Começa. Esse não está lendo nada. Que pena. Acaba o serviço. O velho da dá uma nota rasgada de um real. Dois reais em meia hora. Quem sabe ele não conseguiria o suficiente para comer alguma coisa aquele dia.

...

Fim de tarde. O movimento nas ruas aumenta rapidamente. Diminui rapidamente. As pessoas passam apressadas, indo para suas casa depois de um dia de serviço. Ele também. Guarda suas coisas. Com a caixa debaixo do braço vai embora.

Chega em casa. Não tem ninguém. No fogão um pouco de arroz e feijão, frios. Ele joga um pouco em uma panela. Esquenta. Coloca um pouco de farinha. Pega um copo de água. É sua janta. Depois de algum tempo chega sua mãe. Mais tarde seu padrasto, meio bêbado. Ele lhe entrega o dinheiro daquele dia, pouco mais de dez reais. O homem acha pouco. Diz que ele roubou, gastou o dinheiro com alguma bobagem. Bate nele. A mãe olha. Só isso. Ele vai para o quarto, machucado. Deita na cama dura. Lembra das noticias que leu aquele dia. Da nave espacial. Dorme. Sonha. Amanhã quem sabe, talvez ele consiga um pouco mais.

Um comentário:

Felipe Attie disse...

Legal o texto, cara. Vi seu blog listado numa comunidade do ORKUT. Também escrevo e participo da mesma comunidade — wwww.felipeattie.com. Entra lá, quando puder.