8 de out de 2008

A Cidade e o Homem.

Sentado no alto do prédio, dez andares acima da rua, ele olhava as pessoas que passavam. Pessoas estranhas. Lá de cima pareciam formigas. Trabalhando. Trafegando sem por que. Sem motivos. Quantas daquelas pessoas poderiam reparar em um homem sentado no alto de um prédio. Ele pensava nessas coisas. Em muitas outras também. Ele se parecia com um homem. Mas sabia que não era um. Quantos homens estariam naquele lugar. Se ele quisesse poderia pular. Cair lá do alto. Provavelmente daria muito trabalho a algumas daquelas pessoas que passavam pela rua. Um policial que teria que fazer a ocorrência. Um médico ou qualquer outro que fosse chamado para tentar salva-lo. Tarefa inútil, ele pensava. Daquela altura seria inútil. O pessoal da limpeza urbana. Será que eles teriam que limpar o seu sangue do chão. Suas tripas. Seu cérebro. Pelo menos ele achava que tinha um, embora as vezes sem muita certeza. Poderia viver sem um? Ele pensava. Provavelmente não. Não viver de verdade. Andar por ai. Fazer amigos. Conversar. Não que ele fizesse essas coisas, mas pensava nelas. Poderia faze-las se quisesse, ele pensava.

Pular. Melhor não. Hoje não. Quem sabe um dia. Era uma dúvida que o atormentava. Será que teria coragem de pular? Talvez. Quem sabe um dia, mas não hoje. Melhor não, pensou.

Lá do alto via o horizonte da cidade, acinzentado, turvo. Diferente daquele que ele via há muitos anos, quando morava no campo. Lá também via o mundo do alto, sozinho. Mas lá era diferente. Do alto do morro mais alto. Não haviam pessoas, não tantas, passando. Uma vaca ou um cavalo. Ele via o rio que ia pra longe. Afluía até outro. Esse outro por acaso passava por aquela cidade. Será que eram as mesmas águas. Águas onde ele tomava banho quando criança. Provavelmente não. Lá, na cidade, as águas do rio não eram claras, transparentes. Não haviam peixes naquela rio. Ele nunca havia visto ninguém pescando. O horizonte. Tão diferente. No campo ele via tão longe. As montanhas, as serras. Tinham um tom azul, era estranho aquele azul. Vez ou outra um avião passava. Na cidade era a todo momento, grandes barulhentos, ele pensava. Passava a tarde pensando, sentado no alto do prédio. Vendo a cidade, as rua, os cruzamentos. As vezes um acidente. Um ladrão que roubava uma bolsa e saia correndo. Ninguém parava para ajudar e o ladrão fugia. Depois de muito tempo aparecia um policial.

Ele lá em cima. Ninguém o via, ninguém tinha tempo de olhar pra cima. Todos tão apressados, ele pensava. Mas ele olhava para cima, mesmo já estando tão alto ainda havia o que olhar. No fim da tarde, quando o movimento das ruas diminuía e o sol ia se pondo ele olhava para cima. Via as estrela. Ele gostava do olhar para elas, mas lá, na cidade elas eram diferentes. Não tinham foco. No campo, como era bonito olhar para o céu. Na cidade haviam muitas luzes, elas espantavam as estrelas.

Uma vez ele ouviu dizer que uma moeda de dez centavos, que se ela caísse de muito alto, e acertasse a cabeça de alguém, a pessoa morreria. Uma vida por dez centavos. Coisas estranha. Uma vez ele jogou uma moeda. Ninguém morreu. Melhor assim, pensou. Apenas ficou dez centavos mais pobre.

Sentado lá em cima passava horas. Sozinho. Não se importava. Até gostava. Não sentia fome, e se sentisse poderia descer e comer algo. Não sentia frio. Se sentisse poderia buscar um casaco, mas não sentia essas coisas. Apenas ficava lá sentado. As vezes se imaginava como uma gárgula, daquelas que ele via no livros, que ficavam no alto das igrejas. Duras, de pedra. Mas ele não era de pedra, pelo menos pensava que não. Apenas os pássaros lhe faziam companhia, mesmo assim apenas de vez em quando. Ele não tinha muito a oferecer a um pássaro. Não tinha milho, pipoca ou qualquer outra coisa que um pássaro pudesse querer.

Passava assim suas tardes. Quase todas. Ficava feliz em poder sentar no alto de seu prédio e ver as pessoas passando. Formigas. Ficava pensando, lembrando, planejando. Nem sempre havia sido daquele jeito. Já tinha tido amigos, pessoas com quem conversar. Já havia amado. Um dia, ele não sabia, não entendia, ela foi embora. Sem razão, sem motivo. Apenas foi. Alguns dias depois ele soube. Ela estava morta. foi achada, jogada no chão. Havia pulado de um prédio. Do décimo andar ele soube. Leu no jornal. Com ele havia uma carta, endereçada à ele. Um dia apareceu um policial na sua porta, lhe entregou a carta. O senhor não vai ler? O policial perguntou. Não. Respondeu. O guarda foi embora, um pouco contrariado. Ele nunca leu a carta. A levava sempre consigo, mas nunca a leu. Nunca abriu o envelope.

Sentado no alto do prédio ele pensava. A carta guardada no bolso. Hoje não. E melhor não, ele pensava.

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