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3 de dez. de 2008

Se amei de mais...

Amei de mais
e agora quero esquecer
por não ser capaz
de me compreender
sofri demais.

Cheguei a pensar
que seria você
que iria escutar
e me entender.

Eu te daria tudo,
o que sou e que seria,
mas você me negou,
fingiu que ouvia.

E agora restei apenas
incapaz e errado,
torto e triste,
um pouco desesperado.

Confesso: nunca fui capaz
de me ver no futuro
ou viver o presente
apenas achei que seria minha paz
e você se fez sem clemência ausente.

Agora sinto muito por mim
por não conseguir dizer
tudo aquilo, em fim,
que não estando comigo
pensei ver em você.

E nesse final que chegou
e que nuca foi o que imaginei
peço desculpas e seu perdão
por ter me permitido te amar
e te perder sem armas ou luta.

Peço perdão pelas lágrimas que derramei
pensando no quão bom teria sido,
perdão por não te ter esquecido
e por ter me magoado.

E agora oro
para que tudo
(Choro, para que nunca)
mais se repita enfim
torto e triste assim
no fim.

Adeus.

4 de nov. de 2008

Outro dia andava na rua

Outro dia enquanto andava na rua
no centro de uma cidade qualquer
seguia por ai no sol e na chuva

no meio do dia os sinos tocaram
chamando a todos para rezar
pela alma de algum tolo
que aqui não pode ficar

chegou uma criança e me perguntou:
"tio, por que os sinos tocam?"

Os sinos não tocam, eles na verdade choram
por quem quer que tenha ido e falta fará
pois juntos no mundo somos um só
e quando alguém se vai ele fica menor

"os sinos tocam por nós"

A criança já se foi, assim como já fui,
e agora já me vou também.
Sé espero que quando me for
não seja por mim que os sinos toquem.

Obrigado.

8 de out. de 2008

A Festa.


















“Obrigada”. É uma palavra estranha para se dizer antes de morrer. Pelo menos acho que é. Posso estar errado. É estranho. Aconteceu a tanto tempo. Parece que foi ontem. Quando me chamaram para aquela festa eu não quis ir. Foi um amigo meu. Era amigo do dono da festa. Ele ia sozinho, mas me encontrou na rua e me chamou. Foi em cima da hora. Quase não fui. Por preguiça mesmo. Ele insistiu. Eu fui.

Cheguei lá. Não conhecia ninguém. Já havia visto um ou outro na faculdade. Nunca tinha conversado com ninguém. Meu amigo, cara estranho. Chegamos e ele começo a beber. Eu bebi também. Pouco. Ele ia direto, um como atrás do outro. Várias bebidas diferentes. Em pouco tempo estava caído no sofá. Fiquei encostado num canto. Vendo a festa, os outros conversando. Pareciam se divertir. Riam, bebiam, fumavam, conversavam. Eu encostado num canto. Um lata de cerveja na mão. Uma boa companhia.

Não lembro a hora. Parecia que estava lá a dias. Já estava pensando em largar meu amigo lá, jogado no sofá e ir embora. De repente eu reparei. Do outro lado da sala. Linda! Uma blusa de alça, preta. Calça xadrez. Allstar. O cabelo chanel, encaracolado. Os olhos castanhos. Linda! Fiquei olhando para ela. Por muito tempo. Não sei se ela percebeu. Eu me virei. Olhei pela janela. Pensei: Vou até lá? Olhei para o lugar onde ela estava. Já não estava mais lá. Que pena, pensei. Decidi ir embora. Me virei. Ela estava lá. Do meu lado. Parada. Falou comigo. Sorriu. Conversamos. Depois de algum tempo fomos para a varanda. Ela me beijou! Um beijo bom, gostoso, suave. Sentia o cheiro dela. Por algum motivo, não sei qual, me inebriava. Me deixava tonto. Era perfeito. Os lábios dela. Os meus. Juntos. O corpo dela junto ao meu. Abraçados. Um abraço apertado. Gostoso. Ficamos assim por muito tempo.

Na sala o movimento ia diminuindo. Alguns foram embora. Outros caiam bêbados. Companhia ao meu amigo. Já era tarde. Muito tarde. Olhei para o céu la da varanda. Vi o touro. Em pouco tempo ia amanhecer. Paramos de nos beijar. Conversamos um pouco. Nos beijamos mais. Ficamos assim por algum tempo.

Ela colocou alguma coisa no meu bolso. Um pedaço de papel. Um bilhete. Perguntei o que era. Ela disse que nada, apenas um poema. Pediu que eu o lesse depois. Concordei. Me pediu para buscar um copo de bebida. Fui. Quando comecei a me afastar ela pegou o meu braço. Me beijo forte. Por muito tempo. Se afastou. Disse: “Obrigada.” Apenas isso. Tornou a pedir a bebida. Fui buscar. Quando cheguei na sala ouvi um barulho. Assustador. Olhei para a varanda. Ela não estava la. Ouvi o alarme de um carro na rua. Corri até a sacada. Lá no chão. Dezoito andares abaixo. Ela. Linda! Morta!

É algo estranho de se dizer antes de morrer: “obrigada”. O bilhete. Eu guardo comigo até hoje. Ainda não o li. Guardo a lembrança daquela noite. Uma noite estranha. Passei poucas horas com ela. Não sei explicar o por que. Sinto saudades. Muitas vezes, a noite, penso nela. Nas coisas que conversamos. No cheiro. No beijo. Quando vou a uma festa. Coisa rara agora. Me encosto num canto e fico lembrando. Olhando. procurando por ela. Sei que é inútil. Quem sabe um dia. Talvez eu possa entender o que aconteceu naquela noite. Talvez ela fosse um anjo. Um anjo de asas tortas, que não conseguiu voar...