12 de nov de 2008

Adeus, de um misantropo.


"'Mãos Dadas
Não serei o poeta de um mundo caduco.
Também não cantarei o mundo futuro.
Estou preso à vida e olho meus companheiros
Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.

Entre eles, considere a enorme realidade.
O presente é tão grande, não nos afastemos.
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.
Não serei o cantor de uma mulher, de uma história.
não direi suspiros ao anoitec
er, a paisagem vista na janela.

não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida.
não fugirei para ilhas nem serei raptado por serafins.
O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes,
a vida presente.'



"Esprit de l'escalier"


Sabe aquelas horas, em que no meio de uma conversa ou discussão você fica mudo. Não sabe o que dizer. Então, depois que a conversa acabou e não a mais nada que possa ser dito. Quando você está descendo as escadas e indo embora. Ai vem à mente uma idéia brilhante, genial, que teria sido perfeita se dita alguns minutos antes. Mas agora é tarde. Não importa o que você faça. A esses momentos os franceses chamam "esprit de l'escalier". "Sagacidade de escadas". Li isso em algum lugar há muito tempo e guardei a informação.
"E se...". O que poderia ter sido? O que poderia ser dito? O imperfeito que se faz presente no passado. Um passado que não se pode mudar, mas que teima, de forma insistente e perturbante em se fazer remoer na mente. Passado. Já foi! Queria que tivesse ido. Agora posso apenas olhar para traz e pensar "E se...". São coisas, entre tantas outras. Coisas que me perturbam, atormentam. Já houve uma época em eu não saberia compreender essas coisas. Há muito tempo. Agora. Já sei. Talvez. Se eu pudesse esquecer! Apagar tudo, tirar as lembranças da minha mente. Talvez tudo voltasse a ser como era antes. Aquelas lembranças. As boas lembranças. O que faço com elas? Deveriam me reconfortar, mas não é o que acontece. Dentro da mente vão indo e vindo, misturadas, turvas. O foco fosco, o traço tosco. Indefinidas. Um amálgama de pensamentos. Pensamentos conflitantes. Distorcidos.

Foi idéia do poeta. Ser gauche. Não é idéia minha. Nunca foi. Agora sou. Não quis, mas sou. Sigo sendo. Indefinido. Tosco. Torto. Quase morto, por uma vez ou duas. Duas na verdade. Espero pela terceira.

"
Esprit de l'escalier". Agora até mesmo a escada já passou. Não volta mais. Posso seguir. Será que quero? Não sei. Apenas sigo. Sigo por enquanto. Assim vou indo. Devagar, sem pressa. Amanhã quem sabe? Será que alguém sabe?
Aeria Gloris". Um tempo melhor poderia vir. Pensamos saber quem são os outros. Na verdade não estamos nem perto de saber que somos! Houve um tempo em que soube. Pensei saber. Posso ter, ser, sentir, continuar. É a única forma que tenho. Que me reconheço. Reconheço os outros. Meu rótulo. Minha personalidade. Como será a volta? Um lugar como outro qualquer. Uma pessoa como outra qualquer. Um tempo qualquer. Já conheci pessoas. Muitas. Fantásticas. Outras nem tanto. Pessoas que me amaram. Que me amam. Que amo. Que amei. Em lugares diferentes. Algumas permanecem por muito tempo. Outras somem depressa. Todas deixam sua marca. Mais profundas. Menos profundas. Cicatrizes. A marca, a ferida que permanece. Aberta por muito tempo dói. Aquela que mais dói. Aquela feita por quem mais sinto falta. Pessoas que pensaram me conhecer. Que pensei que me conheciam. Não. Ninguém. Quase ninguém me conheceu. Me entendeu. Ninguém por inteiro. Ninguém plenamente. Os anos. Passavam devagar. Devagarinho. Aos poucos me mostrando as estações. Me expulsando do ninho. Agora correm. Desenfreados. deembestados. Impiedosos. Levam embora as pessoas, aquelas que amei. Que amo. O que me resta? Tudo o que sempre tive. Nada. Apenas eu. Sozinho. No escuro.
Tantas vezes olhei para o céu a noite. Por horas. Havia apenas as estrelas. As estrelas eu eu. Diamantes brancos no céu. Quase podia toca-las. Como eu quis, tantas vezes. Outras a lua me acompanhava. Sorria para mim por alguns dias. Desdenhosa. Ia seguindo, aos poucos me escondendo as estrelas. Depois elas voltavam. Mais brilhantes. Outras vezes a lua parecia triste. Se escondia atrás das nuvens e levava as estrelas consigo. Nunca ninguém me entendeu. Eu entendia a lua. Ela conhecia meus segredos. Ela e as estrelas. Quantas horas passei desafiando o olho vermelho do touro. Agora já não olho mais para o céu. Outras luzes levaram seu brilho, sua cor. Me deixaram no escuro. ainda mais escuro do que antes. Me escondo nas sombras. Eu poderia voltar. Olhar novamente para as estrelas. Para a lua. Pedir seu perdão. Acho que não posso. Eu escolhi ir embora. Foi uma escolha estranha. Escolhas. Muitas me perturbam. Não me arrependo das escolhas que fiz. Não acho certo me arrepender. Agora. O presente. Tão intangível, escorregadio. Traz o futuro para perto. É mentira não existe futuro. Apenas a esperança, a ideia, a expectativa de futuro. É apenas uma ideia. A ideia de um anjo. Um anjo de asas tortas. Agora. O presente. O prelúdio. O prefácio do passado. Isso é verdade. Mas também é mentira. O passado não existe também. É apenas uma lembrança. Uma sombra indefinida, sem foco. Já aconteceu. Ponto final. "E se...". Apenas uma ideia e uma lembrança. Ambas se misturam. Isso é o presente. Ideia daquele anjo. Maldito anjo.

O presente. As ideias e as lembranças. As estrelas e a lua. As pessoas, que amei e que me amaram. O anjo. Os momentos. Os "E se...".As marcas que todas essas coisas deixaram. É possível senti-las. Elas ditam o meu ritmo. O meu pulso. Meu coração. Basta um toque. Basta por a mão no meu peito para sentir. Todos os dias, naqueles instantes que antecedem o sono. Quando o presente perde todo o significado posso sentir. Ainda mais forte. Sinto as batidas. O ritmo. As lembranças. Tudo aquilo que já foi e o que ainda virá. Tudo o que poderia ter sido. O caminho que poderia ter seguido. O caminho dos barcos. Os sinos.
Agora. Postas no papel. São as palavras. As frases. Tudo o que eu gostaria de dizer. Pensamentos que passam rápido de mais para serem ditos. Pensamentos que se perderiam. Agora, escritos, são eternos. Infinitos. São os últimos que um dia terei.
Adeus.


'A maioria de nós passa a vida inteira poupando felicidade, tão preocupados em não morrer que acabamos por não viver. Passamos a vida como lagartas rastejantes por medo da metamorfose e do desconhecido; e assim apodrecemos sem termos tido um único momento como borboleta. Se tememos a morte é apenas por não termos vivido. Na verdade morrer sem ter vivido é o único pecado que existe.'"

Ass.: L.L.

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